O caso Banco Master não é apenas um escândalo financeiro. É um teste institucional. Ele encosta no ponto mais sensível da República: o Supremo Tribunal Federal como última instância de confiança pública.
Quando o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, apontando fraudes na emissão de títulos e risco sistêmico, o que estava em jogo parecia restrito ao mercado financeiro. A prisão do banqueiro Daniel Vorcaro na Operação Compliance Zero ampliou o foco. Mas foi a análise do celular do empresário que deslocou o centro da crise. Ali surgiram registros de viagens, eventos patrocinados com ministros do STF em capitais internacionais, contratos vultosos com escritórios ligados a parentes de magistrados e negócios com empresas conectadas a círculos políticos.
O problema não é a fotografia isolada de um encontro social ou de um contrato formalmente permitido. O problema é o padrão. Um banco que hoje se revela estruturalmente irregular patrocinava fóruns internacionais com integrantes da Corte, mantinha relações comerciais milionárias com o escritório da esposa de um ministro e aparecia vinculado à empresa da família de outro. Ainda que tudo estivesse tecnicamente dentro da legalidade formal, a pergunta central é outra: estava dentro do padrão ético que se espera de quem julga o país?
No caso envolvendo o entorno de Alexandre de Moraes, reportagens apontaram contrato milionário entre o banco e o escritório da mulher do ministro para assessoria jurídica ampla, sem detalhamento específico de causas. No eixo que toca Dias Toffoli, mensagens da investigação mencionam negócios entre fundo ligado ao Master e a empresa Maridt, da qual o ministro é sócio. A reação inicial foi defensiva. Depois, vieram confirmações parciais e o afastamento da relatoria do caso. Formalmente, o Supremo afastou suspeição. Politicamente, o desgaste permaneceu.


O caso é transversal. Atinge direita, esquerda e centro. Não há campo ideológico imune quando a engrenagem é alimentada por dinheiro farto, patrocínios sofisticados e proximidade institucional. O que emerge não é um escândalo partidário. É um problema sistêmico de promiscuidade entre poder econômico e poder decisório.
O Supremo construiu, nos últimos anos, protagonismo no enfrentamento ao golpismo e à desinformação. Ao ocupar o centro do debate político, elevou também o grau de exigência ética sobre si mesmo. Não existe código de conduta específico para ministros, não há regra clara sobre patrocínios privados em eventos com magistrados e os mecanismos de transparência são limitados. Em qualquer democracia consolidada, a percepção de conflito de interesses é tão corrosiva quanto o conflito em si.
O caso Master deixa perguntas que não são jurídicas, mas institucionais. Como um banco sob suspeita conseguiu circular com tamanha naturalidade nos ambientes mais sensíveis do país? Por que a reação imediata não foi a transparência total, mas a negação? E se o topo do Judiciário precisa ser pressionado por Polícia Federal e imprensa para reconhecer potenciais impedimentos, que mensagem isso envia ao restante da estrutura judicial?
Escândalos no Brasil costumam ser tratados como tempestades passageiras. Este não é. Quando dinheiro financeiro, capital religioso, influência política e Corte constitucional passam a dividir o mesmo espaço relacional, o risco não é apenas de ilegalidade. É de erosão de confiança.
E confiança institucional, diferente de contratos e dividendos, não pode ser liquidada extrajudicialmente e reaberta no dia seguinte.
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