Durante décadas, comprar no Paraguai significava atravessar a fronteira. E fazer compras nos Estados Unidos quase sempre vinha acompanhado de uma cena conhecida dos brasileiros: malas que saíam relativamente vazias e voltavam perigosamente perto do limite de peso.
Nada disso acabou. Ciudad del Este continua recebendo brasileiros atrás de perfumes, eletrônicos e todo tipo de produto mais barato. Miami e Orlando continuam sendo destinos de compras. O que mudou é que já não é preciso estar lá para comprar lá.
Nos Estados Unidos, brasileiros transformaram essa possibilidade em negócio. Grupos de WhatsApp e perfis nas redes sociais recebem encomendas, fazem as compras e enviam os produtos para o Brasil. Há operações especializadas em artigos de luxo, outras em perfumes, cosméticos e produtos de beleza e algumas que vendem de tudo um pouco, de produtos de farmácia a utensílios domésticos. Até o liquidificador Ninja, objeto de desejo de muita gente que gosta de cozinha, aparece entre as ofertas.


A mudança é importante para um comércio que construiu sua relação com o consumidor brasileiro em torno da fronteira física. A Ponte da Amizade não perdeu importância, mas deixou de ser passagem obrigatória para algumas dessas compras. Uma loja de Ciudad del Este agora pode vender diretamente para alguém em São Paulo, Belo Horizonte ou Salvador.
Comprar do exterior sem sair de casa, claro, não é novidade para o brasileiro. As encomendas vindas da China por meio de grandes plataformas de comércio eletrônico já se transformaram em um fenômeno de consumo no país. A diferença é que agora essa mesma lógica alcança dois destinos que fazem parte há décadas do roteiro de compras dos brasileiros: Estados Unidos e Paraguai.
O preço continua sendo o principal combustível dessa relação, e um perfume conhecido ajuda a colocar a diferença em números. O La Vie Est Belle Eau de Parfum, da Lancôme, de 100 ml, foi encontrado no Paraguai por cerca de US$ 78, aproximadamente R$ 402. Nos Estados Unidos, o preço regular na Lancôme é US$ 164, cerca de R$ 846. No Brasil, encontramos o mesmo perfume por R$ 749 em promoção na Sephora, com possibilidade de parcelamento em dez vezes.
A comparação traz uma surpresa: o Paraguai aparece muito mais barato, enquanto o preço promocional brasileiro fica abaixo do preço regular americano. Mas os R$ 402 paraguaios não serão necessariamente o valor pago por quem mandar entregar o perfume em casa. Entram na conta frete e tributos. O mesmo vale para as encomendas feitas nos Estados Unidos por intermédio de terceiros. Comprar fora, portanto, não significa automaticamente fazer um negócio melhor, mas o simples fato de o brasileiro continuar comparando preços em três países ajuda a explicar por que esse mercado existe e encontra novas formas de chegar ao consumidor.
Durante muito tempo, a compra internacional esteve associada à viagem, à mala e à fronteira. Isso continua existindo e provavelmente continuará por muito tempo. A novidade é que uma parte desse comércio está se separando da viagem. O brasileiro ainda atravessa a Ponte da Amizade e ainda volta dos Estados Unidos com a mala cheia, mas agora também pode receber em casa aquilo que antes procurava do outro lado da fronteira.
A tradição brasileira de comprar no exterior não desapareceu. Ganhou uma versão digital. E a fronteira, pelo menos na hora das compras, agora também cabe na tela do celular.
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