

“Eu consegui pegar o código de machine learning, que é usando IA, e consegui criar esse aparelho dentro do meu computador de forma gratuita, que dá o tamanho dessa partícula de ouro que deve ser colocada na próstata do paciente, a custo zero”, disse Matheus ao jornalista Rinaldo de Oliveira, CEO do SNB.
O rapaz, que cresceu em Girau do Ponciano, no interior de Alagoas, saiu de casa aos 18 anos para estudar em São Paulo. Formou-se em Física na Universidade de São Paulo (USP), conquistou uma bolsa integral de pós-graduação no Hospital Israelita Albert Einstein e desenvolveu a pesquisa que deu origem ao Modelo Padrão Farias (MPF), uma formulação matemática capaz de prever o crescimento de nanopartículas de ouro. Ele revelou que nesta terça-feira (27) conseguiu a patente da descoberta junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
Como a equação pode ajudar no tratamento do câncer
A inovação de Matheus está relacionada a uma tecnologia experimental conhecida como nanobraquiterapia, estudada para futuras aplicações contra o câncer de próstata. A proposta envolve nanopartículas de ouro, estruturas tão pequenas que não podem ser vistas a olho nu. Em uma das possibilidades investigadas, essas partículas seriam ativadas em um reator nuclear para adquirir propriedades radioativas.
O objetivo das pesquisas é estudar maneiras de levar ou concentrar a radiação na região do tumor para atingir as células cancerígenas com maior precisão e sem atingir os tecidos saudáveis. Para desenvolver essa tecnologia, porém, os pesquisadores precisam compreender e controlar características das nanopartículas, principalmente o tamanho, a distribuição e o comportamento durante a fabricação.
É justamente nessa etapa que entra a equação criada pelo brasileiro. O Modelo Padrão Farias utiliza cálculos matemáticos e simulações computacionais para prever como o diâmetro das nanopartículas de ouro muda ao longo do tempo, permitindo testar diferentes condições antes de realizar experimentos físicos.
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A pesquisa foi divulgada oficialmente pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e também envolveu colaboração de pesquisadores da University College London, no Reino Unido. Durante a live do Só Notícia Boa, Matheus explicou que conseguiu utilizar inteligência artificial e programação para reproduzir virtualmente parte das análises feitas por equipamentos sofisticados de caracterização de nanopartículas que são caríssimos.
A ferramenta foi desenvolvida em Python, uma linguagem de programação muito utilizada em pesquisas científicas e aplicações de inteligência artificial. Segundo a CNEN, o sistema permite gerar imagens sintéticas e representações de técnicas como microscopia eletrônica de transmissão e espalhamento dinâmico de luz, utilizadas para analisar nanopartículas.
Isso não significa que o programa substitua integralmente os equipamentos. As simulações são ferramentas complementares que ajudam os cientistas a planejar experimentos e analisar resultados, reduzindo a necessidade de determinadas etapas de tentativa e erro em laboratório.
Do interior de Alagoas para a USP
A trajetória de Matheus também chama a atenção pelas dificuldades que precisou superar para chegar à pesquisa científica. Nascido em Arapiraca e criado em Girau do Ponciano, no Agreste de Alagoas, ele estudou em escolas públicas e, quando criança, chegou a enfrentar dificuldades com matemática.
Anos depois, aos 18 anos, Matheus deixou Alagoas para buscar oportunidades de estudo em São Paulo. Conseguiu cursar Física na USP e, durante a pandemia, participou de um processo seletivo para uma pós-graduação em Física Médica no Hospital Israelita Albert Einstein. Ele ficou em segundo lugar e recebeu uma bolsa integral.
O curso custava aproximadamente R$ 74 mil, dinheiro que estava fora das possibilidades financeiras do jovem. Durante a formação, Matheus se aprofundou nas aplicações da Física à medicina, desenvolveu pesquisas e recebeu uma premiação acadêmica por um artigo científico. Depois, voltou à USP para desenvolver estudos no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), onde elaborou o Modelo Padrão Farias.
Pesquisa teve colaboração internacional
O desenvolvimento da equação reuniu conhecimentos de matemática, física nuclear, química, nanotecnologia e computação. O trabalho contou com a colaboração de pesquisadores ligados ao Departamento de Engenharia Química da University College London (UCL), no Reino Unido, e foi desenvolvido durante o mestrado de Matheus no IPEN/USP.
O modelo matemático permite estudar a evolução do tamanho das nanopartículas ao longo do tempo e testar diferentes condições de produção. A pesquisa recebeu financiamento por meio de bolsa da Comissão Nacional de Energia Nuclear.
O desenvolvimento também está associado a um pedido de patente apresentado ao INPI, referente ao controle preditivo da síntese de nanopartículas metálicas. O pedido foi identificado em reportagem sobre a pesquisa pelo número BR 10 2026 022701 3.
“É do povo”
Matheus continua desenvolvendo pesquisas que aproximam física nuclear, matemática e medicina, com aplicações potenciais em radioterapia e medicina nuclear e afirmou ao SNB:
“Me dedicarei, vou continuar estudando em prol da pesquisa para que essa pesquisa possa ser aplicada futuramente para ajudar todos os pacientes oncológicos. Porque a pesquisa não é só minha, eu fiz mas ela é nossa, é do Brasil, é do povo”, concluiu.
Assista ao vídeo da entrevista do Matheus ao Só Notícia Boa:


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