Venezuela: a soberania sob custódia dos EUA

O mundo acordou espantado. Não porque a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela fosse impensável. Os sinais vinham se acumulando havia meses. O choque veio do modo como tudo foi feito e, sobretudo, do que foi dito depois. A captura de Nicolás Maduro e de sua mulher, o sequestro de um chefe de Estado em pleno exercício do cargo e o anúncio explícito de que Donald Trump pretende governar o país e assumir o controle do petróleo venezuelano como forma de “reembolso” romperam qualquer ilusão residual. Desta vez, não houve esforço para vestir a operação com o figurino tradicional da
Venezuela: a soberania sob custódia dos EUA

O mundo acordou espantado. Não porque a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela fosse impensável. Os sinais vinham se acumulando havia meses. O choque veio do modo como tudo foi feito e, sobretudo, do que foi dito depois. A captura de Nicolás Maduro e de sua mulher, o sequestro de um chefe de Estado em pleno exercício do cargo e o anúncio explícito de que Donald Trump pretende governar o país e assumir o controle do petróleo venezuelano como forma de “reembolso” romperam qualquer ilusão residual. Desta vez, não houve esforço para vestir a operação com o figurino tradicional da “defesa da democracia” ou da “proteção dos direitos humanos”. A mensagem foi direta, quase brutal: trata-se de poder e de recursos estratégicos.

Nicolás Maduro não é um democrata. Seu regime acumula violações sistemáticas de direitos humanos, repressão política e colapso institucional, fartamente documentados por organismos internacionais. Nada disso, porém, autoriza tratar a soberania venezuelana como um detalhe descartável. O que chocou chancelerias, analistas e instituições multilaterais não foi apenas a queda de um líder autoritário, mas o pacote que veio junto com ela. Quando um presidente dos Estados Unidos afirma que vai mandar em outro país e usar seus poços de petróleo para indenizar uma operação militar, a retórica da “intervenção humanitária” perde qualquer verniz. O que antes era denunciado como agenda oculta passa a ser proclamado em coletiva de imprensa.

A reação não se limitou a Caracas ou a governos ideologicamente alinhados ao chavismo. Setores expressivos da própria elite política, jurídica e midiática norte-americana classificaram a ação como ilegal e imprudente. Editorialistas falaram em um “imperialismo de nova geração”, conduzido sem autorização do Congresso e à margem do direito internacional. Especialistas ligados às Nações Unidas foram ainda mais diretos ao caracterizar a operação como agressão ilegal e violação frontal da Carta da ONU, que proíbe o uso da força para impor mudanças de regime fora de situações de autodefesa ou sem mandato do Conselho de Segurança. Ou seja, a acusação de ilegalidade não parte apenas dos adversários históricos dos Estados Unidos, mas de vozes centrais do próprio sistema que Washington ajudou a construir.

Do ponto de vista jurídico, a frase “vamos governar a Venezuela” empurra a situação perigosamente para o terreno da ocupação. Não se trata apenas de presença militar, mas de assumir controle político, administrativo e econômico de um território. Isso aciona um conjunto de obrigações previstas no direito internacional humanitário, desde a proteção da população civil até o respeito às leis locais. Mais delicado ainda é o ponto que economistas e juristas vêm sublinhando: a exploração de recursos naturais de um território ocupado em benefício da potência ocupante é expressamente proibida. Quando Trump associa a captura de um país ao controle de suas reservas de petróleo como forma de “reembolso”, a fronteira entre intervenção e saque deixa de ser retórica e se torna perigosamente concreta.

O espanto global também tem memória. Comparações com a prisão de Manuel Noriega, no Panamá, em 1989, surgiram quase automaticamente. Naquele episódio, outro líder latino-americano foi capturado por forças norte-americanas, inaugurando um período de ocupação tácita e instabilidade prolongada. A diferença agora está menos nos meios do que na franqueza. Em 2026, Trump não finge que se trata de uma missão para salvar a democracia. Fala em negócios, em acesso privilegiado ao petróleo e em como lidar com China e Rússia nesse novo tabuleiro. A transparência, nesse caso, não suaviza o gesto. Apenas escancara sua lógica.

É por isso que o que acontece em Caracas não termina em Caracas. A captura de Maduro e o anúncio de um governo tutelado pelos Estados Unidos enviam um recado inequívoco à América Latina. Governos passam a recalcular cada movimento, que alianças constroem, que contratos de energia assinam, que posições assumem em fóruns internacionais, não apenas à luz do interesse nacional, mas do grau de irritação que podem provocar em Washington. O risco é a região voltar a ser tratada como área de influência automática, um espaço onde soberania política e econômica vale menos do que o apetite estratégico das grandes potências.

Quem celebra o episódio em nome da liberdade talvez ainda não tenha entendido o que está em jogo. Democracia não existe sem soberania. Não há governo do povo quando outro país se reserva o direito de decidir quem governa e o que será feito das riquezas de um território. Ao rasgar, à luz do dia, princípios básicos do direito internacional, Trump não ameaça apenas a Venezuela. Testa os limites da ordem global e oferece munição para que autoritarismos de diferentes matizes usem o medo da intervenção como instrumento político. Quando a força vira regra, soberania deixa de ser direito e passa a ser concessão. O espanto do mundo é menos surpresa e mais alerta: se alguém decide tomar o volante, qualquer país pode descobrir, da noite para o dia, que já não está mais no comando do próprio caminho.

O post Venezuela: a soberania sob custódia dos EUA apareceu primeiro em Brazilian Magazine.

Confira o link original do post
Matéria original por Brazilian Magazine

Todas as imagens são de autoria e responsabilidade do site acima.

Veja também

Universal fechará o Expresso de Hogwarts por duas semanas em fevereiro

Universal fechará o Expresso de Hogwarts por duas semanas em fevereiro

Uma das atrações mais emblemáticas do complexo ficará interditada entre os dias 9 e 23 de fevereiro, para manutenções preventivas e inspeções técnicas. Durante esse período, as áreas temáticas de Harry Potter permanecerão abertas normalmente em ambos os parques. O público poderá explorar normalmente o Beco Diagonal – no Universal

NFL tem semifinais neste domingo (25)

NFL tem semifinais neste domingo (25)

De olho no Superbowl (marcado para 8 de fevereiro, em San Francisco), quatro equipes da NFL entram em campo neste domingo para manter vivo o sonho de ganhar o título do futebol americano em 2026. Denver Broncos, New England Patriots, Seatlle Seahawks e Los Angeles Rams chegam às finais das

Delegada adota menina que socorreu de situação de perigo em 2023

Delegada adota menina que socorreu de situação de perigo em 2023

Rinaldo de Oliveira 23 / 01 / 2026 às 10 : 06 Britaine, a delegada que foi acionada para resgatar uma menina em situação de perigo, se encanta e adota a criança 3 anos depois nos EUA. – Foto: Polícia de Greenville Uma história triste transformada pelo amor. Uma delegada

Universal fechará o Expresso de Hogwarts por duas semanas em fevereiro

Universal fechará o Expresso de Hogwarts por duas semanas em fevereiro

Uma das atrações mais emblemáticas do complexo ficará interditada entre os dias 9 e 23 de fevereiro, para manutenções preventivas e inspeções técnicas. Durante esse período, as áreas temáticas de Harry Potter permanecerão abertas normalmente em ambos os parques. O público poderá explorar normalmente o Beco Diagonal – no Universal

NFL tem semifinais neste domingo (25)

NFL tem semifinais neste domingo (25)

De olho no Superbowl (marcado para 8 de fevereiro, em San Francisco), quatro equipes da NFL entram em campo neste domingo para manter vivo o sonho de ganhar o título do futebol americano em 2026. Denver Broncos, New England Patriots, Seatlle Seahawks e Los Angeles Rams chegam às finais das

Delegada adota menina que socorreu de situação de perigo em 2023

Delegada adota menina que socorreu de situação de perigo em 2023

Rinaldo de Oliveira 23 / 01 / 2026 às 10 : 06 Britaine, a delegada que foi acionada para resgatar uma menina em situação de perigo, se encanta e adota a criança 3 anos depois nos EUA. – Foto: Polícia de Greenville Uma história triste transformada pelo amor. Uma delegada